Parte da história alemã está aqui
- 20 de out. de 2018
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Localizada no interior de Venâncio Aires, biblioteca guarda mais de três mil livros, alguns impedidos de ser lidos durante a II Guerra Mundial

O povoamento de Venâncio Aires foi por volta de 1800 pelos açorianos. Após, em 1860, chegaram os primeiros imigrantes alemães vindos de outras colônias e da Europa. Eles buscavam, na cultura e na espiritualidade, uma forma de “matar a saudade” de sua terra natal e, com isso, construíram diversas sociedades nas localidades interioranas, criando espaços de leitura, canto, música, bolão e damas.
Engana-se quem acredita que o município não mantém a cultura alemã fortemente ativa ainda hoje. Linha Andréas, 8º distrito de Venâncio Aires, abriga uma biblioteca comunitária dentro da Associação de Leitura, Canto e Jovialidade, construída em 1933. Mas, conforme o livro de Fundação da Sociedade, “Chronik des Gesang und Lesevereins Frohsinn Ober-Sampaio” (Fundação da Sociedade de Canto e Leitura Jovialidade de Alto Sampaio) no dia 3 de janeiro de 1892 foi fundada a Sociedade de Canto Frohsinn, que significa jovialidade.
O espaço cultural foi idealizado pelos imigrantes alemães e seus descendentes, com raros livros escritos em alemão e alemão gótico. Conforme a atual mantenedora da biblioteca, a professora aposentada Iolandi Flávia Schmidt, muitos livros foram encomendados e trazidos da Alemanha pelos próprios imigrantes que formaram a comunidade no século XIX. “Tem, no interior de Venâncio, uma comunidade que preserva, desde a vinda dos imigrantes alemães, uma biblioteca com quase quatro mil volumes, maioria em língua gótica”, contabiliza. Ela conta que quando os imigrantes vieram para o Brasil, não tinham outro lazer, a não ser ler e cantar. “Eles trouxeram na bagagem livros. Sempre penso nessa questão, essas pessoas, naquela época se preocuparam em trazer esses livros, levar a cultura na mala”, relata.
A atual bibliotecária tem muitas histórias para contar. São anos de convívio, pesquisa e amor pela memória do local. Iolandi tem quase 40 anos de profissão. Na
escola Avaí, localizada praticamente ao lado da Sociedade de Linha Andréas, ministrou aulas de alemão, e , quando o ensino de língua estrangeira não era mais obrigatório, continuou de forma voluntária. “Levei muitos alunos para conhecer a biblioteca de pertinho. Também temos livros em português, o que facilitava. Mas as visitas eram adoradas pelas crianças, já que muitos livros em alemão possuem uma folha muito brilhante, chamativa, com desenhos coloridos, e isso chamava atenção deles”, lembra.
Quando criança, o avô de Iolandi, seu Baldoino Schmidt, preservava o costume da leitura e o disseminava aos netos. “Meu avô tinha um salão de baile e sempre após as festas, antes de dormir, ligava a luz de querosene e lia livros da biblioteca. Quando ia visitá-lo, sempre me contava histórias. E aqueles livros na cabeceira me chamavam a atenção. O meu gosto pela leitura foi adquirido com meu avô”, relembra. Em meio a gargalhadas, a professora conta que seu avô dizia que todos os livros daquela biblioteca já havia lido. “Todos os domingos pela manhã, ele enchia a mala e ia até lá fazer a troca dos livros, tudo a cavalo”, enfatiza. Iolandi transparece o seu amor pela leitura e a facilidade com a língua alemã, até mesmo no gótico, a leitura que é complicada devido às letras “mais desenhadas”. “Sempre disse para meus alunos: ‘ler é que nem escovar os dentes, um hábito’”. A professora, de descendência alemã é formada em Estudos Sociais e em língua alemã pela e faz questão de se aprofundar na história da biblioteca da qual exerce a função desde 2013.
Histórias por de trás das prateleiras
O acervo da biblioteca, quase na sua totalidade, é escrito na língua alemã e alguns na língua alemã gótica – atualmente, livros em português integram as prateleiras, vindos de doações. A Biblioteca Comunitária de Linha Andréas teve seu início ambulante, devido à falta de sede própria. O primeiro bibliotecário que consta na ata foi Otto Wazlawovsky.
Em 1900 foram adquiridos os primeiros livros provenientes das mensalidades e do aumento do número de sócios. Mas eles vieram de outros lugares também. Iolandi conta que quando era professora, pessoas ligadas à cultura germânica “descobriram” que ela dava aulas em alemão e, por saber da existência e preservação
da biblioteca, mandavam livros em containers da Alemanha para ela. Hoje, devido ao fechamento da escola, ela lamenta que algumas obras foram extraviadas.
Quanto ao número de livros na década de 40, atas comprovam que eram em torno de quatro mil volumes. Mas muitos se perderam ao longo dos anos, Iolandi soube contar a história de superação de alguns exemplares históricos. Ela explica que nos anos da II Guerra Mundial, todos que falavam o dialeto alemão eram perseguidos.
O exército descobriu a existência da biblioteca e as obras foram parar no porão do judiciário de Venâncio Aires. Em 1941, uma forte enchente atingiu o município e muitos exemplares foram perdidos, molhados e extraviados. Após alguns anos de repressão, os sócios foram até a sede da polícia e muitos livros retornaram às prateleiras da biblioteca. E esse retorno só foi possível devido ao conhecimento em restauração de alguns imigrantes e pelo zelo à cultura, conta Iolandi.
Acervo curioso e histórico
Em sua maioria, as obras caracterizam-se por serem escritas na tipografia alemã gótica, referindo-se à literatura de entretenimento e história, como romances, romances policiais, contos, novelas, sexo, histórias infantis e expedições. Os livros em português caracterizam-se por literatura de entretenimento e alguns sobre a história e geografia do Brasil e do Rio Grande do Sul.
O acervo conta também com dicionários, exemplares da revista Seleções, revistas RDA (Revista da Embaixada da República Democrática Alemã na República Federativa do Brasil; revista Skt). Paulusblatt - revista em língua alemã, fundada em 1912, editada em Nova Petrópolis, RS; e 19 Grablieder für Männerchor (livro de canções fúnebres para coral masculino).
A obra mais antiga do acervo é de 1881, cinco anos após a colonização da região de Linha Andréas pelos imigrantes alemães: “Bibliothek der Unterhaultung und des Wissens” (Biblioteca do Entretenimento e do Saber). São obras sobre contos, novelas e histórias. Uma coleção de mais de 300 volumes está guardada.
Antes muito utilizada, segundo Iolandi, hoje a biblioteca pode ser visitada aos fins de semana. Os livros, por se tratarem de patrimônio cultural, podem ser
consultados apenas na biblioteca. “Atualmente não acontece mais o empréstimo de livros, mas a comunidade valoriza o espaço. Infelizmente não frequenta muito, mas tem um carinho e um zelo enorme pela cultura preservada.
Sobre o futuro, Iolandi espera que o acervo cultural continue sendo valorizado e preservado. “É um acervo peculiar. E essa cultura precisa ser mantida. Raríssimas localidades do estado tem essa história do local preservada”, conta ela, que diz que pesquisas apontam que a biblioteca é a única do Vale do Rio Pardo com essas características. “Mas o dialeto dificulta o interesse dos jovens”, reconhece Iolandi, porém, revela que a história precisa ser valorizada. “Isso aqui não é patrimônio morto”, arremata.























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