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A derrota e a glória em meio a crise

  • 10 de set. de 2016
  • 9 min de leitura

O empreendedorismo geralmente está ligado ao âmbito empresarial, relacionado com a criação de novas empresas e produtos. Empreender significa identificar novas oportunidades e transformá-las em negócio lucrativo. Um empreendedor é um indivíduo que não espera as coisas acontecerem, é uma pessoa pró-ativa, faz as coisas acontecer. Alguém que empreende acredita no seu potencial, apresenta capacidade de liderança e consegue facilmente trabalhar em equipe. Além disso, o empreendedor sabe que um fracasso é apenas uma oportunidade de aprender e ser melhor, e não se deixa abalar com isso. Porém, nem sempre a pessoa supera o fracasso, além do mais, a crise amedrontou muitos possíveis empreendedores.

Devido à baixa economia do país, muitos estabelecimentos são encontrados desta maneira.

Conforme o site Empresômetro, no Brasil há 19.680.692 empresas ativas, na cidade de Venâncio Aires, em 2014, eram 5.903 empresas abertas, em 2015 esse número passou para 6.440, e em 2016 até o mês de outubro, eram 6.913 empresas funcionando. Já na cidade vizinha, Santa Cruz do Sul, no ano de 2014 eram 13.619 empresas, em 2015 14.920 e até outubro 16.193. No ranking estadual de empresas em funcionamento Venâncio Aires está na 41ª posição. Neste momento Santa Cruz do Sul está na 15ª posição. Mas, conforme a Junta Comercial do Rio Grande do Sul (JUCERGS), o número de empresas extintas no estado a partir do ano de 2013 cresceu muito.

No ano de 2013, 23.687 empresas foram extintas, no ano seguinte, 31.349, em 2015, 64.991, e até o mês de outubro deste ano, 46.056 empresas deixaram de existir. Esses dados são arquivados na JUCERGS, mas acredita-se que muitas outras tenham sido aniquiladas e acabaram não sendo registrados junto ao departamento.

O Bar e Mini Mercado de Auri Jaeger, também foi fechado. No dia 3 de julho de 2013, ele e sua esposa deram o fim ao empreendimento que foi aberto na metade do ano de 1993. Eles contam que compravam tudo direto das distribuidoras, sempre tinham estoque armazenado, vendiam bebidas, gêneros alimentícios, fertilizantes, agrotóxicos, ração animal e gás. Mas chegou a hora de terem descanso. Aposentados, acreditam que agora chegou o momento de aproveitar um pouco mais a vida.

Silma, a esposa do senhor Auri afirma que o principal motivo do fechamento foi sim a idade, mas outros fatores contribuíram para o estopim. "Vendíamos muito fiado, eu não fazia boleto, acreditava na palavra do colono, e anotava no caderninho, a promessa era que com a venda do fumo, eles viriam me pagar. Até hoje, tem gente que nunca me pagou, perdemos uns quatro mil reais nos últimos tempos."

Eles contam que eram muitos gastos, a luz não baixava dos 300 reais, ainda tinha o imposto que não era menos que R$400. Na década de 90, quando começaram a empreender, vários estabelecimentos com as mesmas características já estavam bem estabelecidos na região serrana do município de Venâncio Aires, e eles afirmam que não tiveram problemas com a concorrência, logo começaram a conquistar os clientes e vendiam muito. Anos depois, apenas o negócio do casal sobreviveu na região, "vários concorrentes quebraram, só sobrou nós e mais um distribuidor de bebidas, alguns também preferiram ir pra cidade. Mas nós ficamos, lá no interior, onde a gente começou. Depois que a gente cansou, fechamos, e nos mudamos, preferimos morar perto da nossa filha e das netas , além disso, fica mais perto da cidade" explica Silma.

A professora universitária da Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), Cristina Luisa Erick comenta o porque de novos empreendedores se surpreenderem e fecharem as portas. "O maior problemas dos empreendedores que fecham as portas, segundo estudos do SEBRAE, é a falta de administração financeira. Claro que a crise brasileira afeta, mas se observarmos empresas consolidadas e que possuem planejamento essas influências não afetam tanto. Temos vários exemplos na região de empresas que estão há muitos anos no mercado, e, que passaram por várias crises. Existe segredo? Não! Essas empresas possuem planejamento, liderança e controle".

E para abrir o seu empreendimento várias dificuldades devem ser enfrentadas. Cristina explica que não existem fórmulas mágicas para abrir o seu negócio. "Não existem fórmulas mágicas, muito menos segredos! Abrir um negócio hoje exige antes de mais nada, coragem, confiança em si, e conhecimento de um setor. Muitas pessoas acreditam que ter o seu negócio vem acompanhado de "vida boa", sem horários, sem comprometimento. E o que acontece é o contrário!"

Há quem tenha se dado bem com o seu novo empreendimento, mesmo em época de crise, Roni Wessling, 49 anos, proprietário da Serraria e Comércio de Madeiras Wessling, abriu a empresa no início de agosto de 2015 pelo Micro Empreendedor Individual (MEI), mas em três meses já ultrapassou as vendas, obteve êxito no movimento, um faturamento além do esperado, e devido ao não enquadramento no MEI passou para o Simples Nacional.

Roni conta com um bom estoque e um excelente pátio

Nem sempre foi fácil, Roni fala que muitas dificuldades já foram solucionadas, porém sempre novas aparecem. As dificuldades precisam ser administradas. Ao ser questionado sobre como se sobressair diante da situação do país ele garante que a motivação principal foi querer ter algo que fosse seu. "O que me motivou foi querer crescer na vida, ter meu próprio negócio, sem pagar aluguel, poder chamar de meu. A crise sempre existiu. É necessário ter criatividade, saber se sobressair", comenta o proprietário.

Roni garante ter observado o nicho de mercado na localidade, observou e percebeu que não haviam serrarias na localidade, e que havia uma carência em oferta de diferentes tipos de madeiras. O quadro de funcionários é pequeno, apenas dois, mas, hoje ele terceiriza outros trabalhos, como a derrubada e retirada de torros. Para não fechar o mês no vermelho, ele afirma não repassar todos os gastos nos produtos "Com bastante trabalho, persistência, tento conquistar o máximo de clientes. Mesmo tendo muitos gastos com energia, transporte, pagamento dos funcionários, não repasso todos os valores nos produtos, tento manter o preço estabilizado, e com isso acabo vendendo mais", afirma Wessling.

O cliente sempre é bem atendido, e conta com a diversidade e qualidade de madeiras. "O cliente se for bem tratado, volta sempre, mesmo em pequenas compras atendo todos da mesma forma, com isso ele acaba voltando, e ainda indica para amigos e vizinhos." Ao ser questionado sobre o sucesso ele afirma: "O sucesso do meu empreendimento se dá devido o meu conhecimento, sempre trabalhei com isso, e sempre devemos tratar o cliente como amigo, tratar ele bem, isso é o sucesso". E no final deixa uma dica pra quem está pensando em abrir o seu próprio negócio: "Primeiro lugar, precisa ter conhecimento no ramo, observar se o nicho de mercado não está saturado, e ter persistência. Precisa gostar muito do que faz. Ir com cautela, sempre deixar uma margem. Não se endividar com compras enormes, avaliar se é necessário. Não contar com a sorte. E principalmente não comprometer a renda com financiamentos".

Outra empreendedora que comemora com o seu negócio é Aline dos Santos, 29 anos, proprietária do Salão de Beleza AL Stúdio de Beleza. Iniciou em 19 de agosto do ano de 2015, pelo MEI no SEBRAE. Ela revela que sempre gostou da atividade, arrumava os amigos e familiares, mas nada profissional. Em 2012 iniciou os primeiros cursos, devido querer trabalhar em casa e cuidar da filha que na época tinha apenas três anos. No início o corte masculino era o mais procurado, hoje, pedicure e manicure se sobressaem.

Aline satisfeita com o seu salão de beleza

Ela comenta que sempre queria ter o seu próprio empreendimento, mas faltava aquele empurrãozinho, ela queria ser independente. E afirma que o motivo pela abertura do salão foi "A procura pela independência, o fato de não depender de uma empresa, quem sabe de uma possível falência. Ser tu mesmo o teu chefe".

Para não fechar o mês no vermelho ela raciona os gastos, procura não ter muito estoque, saber o que usa durante o mês, e repor o que utiliza, não comprando o desnecessário, até porque os produtos têm um prazo de validade. Ela atrai os clientes fazendo um bom serviço, e não se preocupa com a concorrência. "Faço bem o meu serviço, respeito o cliente e respeito a sua vontade. Realizo bem o meu serviço, por que a minha propaganda é o meu cliente que faz. Se eu fizer bem, com certeza vou ter uma boa recomendação. E não me preocupo com os meus concorrentes. Importo-me com o que eu faço".

Aline trabalha sozinha por opção, e prefere o interior porque necessita conciliar trabalho, casa e família. Muitas dificuldades já foram superadas desde o início do empreendimento "Já está bem melhor, no início tudo é mais difícil, o movimento é pouco, as pessoas não tem aquela confiança. Quando uma pessoa vem e gosta ela acaba recomendando e volta".

O seu sucesso vem do emprenho, da vontade de vencer, e de querer ter uma vida estável. E a dica que ela dá é: "Primeiro lugar precisa de muitos documentos e dinheiro para abrir a firma, tudo é muito caro, muitas exigências. Está muito difícil, muito gasto. Precisa ir atrás, precisa se informar", comente a cabelereira.

Dados da JUCERGS mostram que do ano de 2013 ao ano de 2014 houve uma diminuição na abertura de novos negócios no estado do Rio Grande do Sul. Em 2013 eram 97.374 mil empresas constituídas, já em 2014 o número caiu para 77.656 mil. Mas no ano de 2015 o número voltou a subir, chegou a 116.200. Até outubro desse ano já foram 102.550 empresas cadastradas.

Os empreendimentos de Roni e Aline são motivos de sucesso, de comemoração. Para saber mais sobre o porquê de alguns negócios não terem vingado, e outros serem motivos de comparação, fomos conversar com professores de Administração da Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC).

Jairo Breunig é professor e corretor de imóveis, e ao ser questionado sobre o sucesso dos proprietários ele diz que lazer e prazer são setores rentáveis, e o sucesso deles não é devido ao setor, mas sim do conhecimento. "Sempre comento que lazer e prazer são setores sempre rentáveis. E o setor de beleza se inclui aí. No entanto, o motivo de sucesso desses dois empreendedores não é decorrente dos setores, mas de sua capacidade de lidar com o mercado, o negócio e os clientes. Ter conhecimento desses três fatores (mercado, negócio e clientes) é ponto fundamental para o sucesso de qualquer negócio! Além disso, para que se possa ter sucesso é necessário descobrir uma oportunidade (algo que esteja faltando, que não esteja sendo ofertado em quantidade suficiente ou que não seja oferecido com a qualidade esperada). Então se devem identificar as necessidades específicas do público-alvo e os benefícios esperados em relação ao produto ou serviço a ser oferecido, agregar isso ao negócio e comunicá-lo ao mercado. São os benefícios valorizados e reconhecidos pelos clientes que agregam valor ao negócio, à marca, ao produto ou serviço e, assim, possibilitam preço e lucratividade maiores. A questão da intensidade da crise não está ligada à área ou setor em que a empresa está inserida, mas à forma de gestão, que deve ser precedida de uma análise do ambiente (macro e micro), da elaboração de ações preventivas e de um planejamento estratégico" comenta.

Já para a Administradora e professora Leticia Schramm Arend, o sucesso de Aline e Roni é pelo fato de: "existe oportunidade para todos e se estes empreendedores conseguem planejar seu negócio e reduzir alguns custos fixos como aluguel, funcionários... fica mais fácil passar pelo período de crise".

Os professores ainda comentam sobre a crise brasileira e internacional, o que ela seria, e os efeitos que ela vem causando. Para Letícia a crise atual é o reflexo de acontecimentos anteriores, a deterioração do quadro econômico a nível internacional e também nacional. Jairo argumenta que a crise seja um problema para as empresas, nações e a população e que esse é o momento de eliminar empresas fracas. "A crise econômica é decorrente de uma situação desfavorável de mercado, em que se tem uma redução de demanda e de poder aquisitivo (não necessariamente nessa ordem). Isso faz com que as empresas tenham que reduzir custos. No entanto, faz também com que empresas com pessoas criativas, inovadoras, empreendedoras, criem novas oportunidades! E esse é o ponto positivo de uma crise! As crises econômicas são momentos de "filtrar" o mercado, pois eliminam as empresas fracas e incompetentes e, por outro lado, permitem o crescimento e surgimento de empresas inovadoras, capazes de perceberem oportunidades ao focarem em possíveis soluções ao invés de ficarem apenas reclamando da situação e focadas nos problemas".

A origem do problema engloba vários fatores, falta de credibilidade do governo e sua equipe econômica, é uma crise política. "A crise econômica normalmente decorre de uma crise política. A economia é afetada diretamente pelo nível de confiança dos investidores em relação a determinado país ou setor. A instabilidade política gera instabilidade econômica e, dessa forma, os investidores reduzem seus investimentos, os clientes diminuem seu volume de compras e, consequentemente, as empresas têm seu volume de vendas e seu lucro diminuídos, o que os leva à redução de custos, que geralmente começa pela demissão de seus colaboradores. Isso, por sua vez, reduz ainda mais o poder de consumo da população, reduzindo a demanda e aumentando a crise" comenta Jairo.

Os administradores acham que agora pode sim ser um bom momento para abrir o seu empreendimento, mas não recomendam o uso de empréstimos bancários. "Se o empreendedor tem verba financeira para abrir um negócio e tem outra fonte de renda que mantenha o seu sustento básico, pode abrir! Agora se a pessoa quiser abrir um negócio com empréstimo de banco e no primeiro mês necessitar fazer retiradas para as suas contas pessoas, daí fica bem complicado. Como dica, todo o empreendedor deve analisar as oportunidades de mercado e fazer um plano de negócios para ficar seguro que está no caminho certo", afirma Letícia.

"Nos momentos de crise surgem as melhores oportunidades. É o momento em que empreendedores criativos, inovadores e com capacidade de fazer algo de forma melhor, conseguem se inserir no mercado com uma concorrência menor. Se vencerem o período da crise estarão fortes o bastante para continuarem no mercado. No entanto, devem ter alguns cuidados e atitudes já mencionadas, como elaborar o plano de negócios, ter uma consultoria especializada, conhecer o mercado, o produto ou serviço e os clientes", salienta Jairo.

Reportagem produzida na disciplina de Fundamentos do Jornalismo Impresso

 
 
 

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